IGREJA DA SANTA CRUZ DOS MILITARES
CONCERTO DE REINAUGURAÇÃO DO ÓRGÃO
TEXTOS DE LAURO HENRIQUE ALVES PINTO
Não é sem uma boa razão que os órgãos estão instalados, principalmente, em igrejas. Eles servem muito bem ao apoio sonoro para os ofícios religiosos. Os recursos dos órgãos suplantam os do conjunto das orquestras, embora os timbres não sejam os mesmos. Compositores famosos escreveram obras específicas para o órgão, música de grande complexidade mas que não tem, necessariamente, relação com os temas clássicos da liturgia das igrejas cristãs. Manter um órgão em perfeito funcionamento é muito oneroso; são milhares de pequenos componentes que precisam ser sempre afinados ou regulados. É tradição antiga realizar concertos ligados aos ofícios especiais nos templos, seja para os rituais sacros ou apenas para a exibição da música pura.
A reinauguração deste órgão revela um momento único na cidade do Rio de Janeiro: introduz no cenário musical um instrumento perfeito, acusticamente integrado à sala que o hospeda e dotado de todos os recursos necessários para exercer os papéis que os órgãos devem desempenhar. O esforço da Irmandade da Santa Cruz dos Militares não tem a intenção de exibir uma relíquia, mas tem o orgulho de mostrar à cidade, da qual foi Sé durante longo período, que o templo está à serviço da fé e da cultura. É preciso ressaltar o trabalho impecável da Família Artesã Rigatto & filhos, responsável pela restauração do instrumento.
Este concerto foi concebido tendo em vista esta perspectiva; mostrar como é possível oferecer aos amantes da música, momentos tão cintilantes e gloriosos, através do brilho das obras de Bach e de Widor, ao mesmo tempo em que se pode atingir o êxtase da comunhão com a divindade, com o auxílio de música criada para os momentos de intimidade e de
reflexão. E o programa nos trará ainda uma visão da História, com apresentação de obras raras que evocam a episódica passagem da corte portuguesa pela mui leal e heróica cidade de S.Sebastião do Rio de Janeiro.
BRIDGET MOURA CASTRO
Organista
PROGRAMA
Duração min
Johann
Sebastian Bach
Fuga de
St.Anne, sobre a canção “Oh God our help in ages past”
7
Johann
Sebastian Bach
Nun Komm
der Heiden Heiland (Prelúdio para Advento)
4
Johann
Sebastian Bach
Polonaise e Badinerie BWV 1067 para flauta e órgão 5
Sigismund Neukömm
Sonate
pour le Pianoforte avec accompagnement de la flûte
12
Cécile Chaminade
Concertino para flauta e órgão 11
Georg Böhm
Confort Ye (Prelúdio para o Advento) 1
Nicolas Le Bègue
Venez divin Messie (Para o Advento) 2
Noel pour l’amour de Marie 2
Eustache du Caurroy
Fantasie sur «Je crois Vierge Marie»
2
Richard
Purvis
Fantasia sobre Greensleeves 4
Johannes
Brahms
Es ist
ein Ros’ entsprungen (Chorale Prelude)
3
Antonio
Carlos Gomes
Ave Maria 3
Pietro Yon
Jesu
Bambino
4
Charles-Marie Widor
Toccata da 5ª Sinfonia 5
CDS L’ART À VENDA após o concerto:
Ave Maria (Bridget Moura Castro - órgão e Claudette Leblanc soprano)
Fantaisies (Beatriz Magal.Castro-flauta e Bridget Moura Castro-piano)
O ÓRGÃO NA TRADIÇÃO MUSICAL BRASILEIRA
O órgão é um instrumento musical antigo. Sucessor do Hidraulós, inventado na Grécia no século III AC, o órgão comandado por um sistema pneumático de foles começou a ser utilizado somente cerca de 700 anos depois. A partir do século XVI o órgão experimentou grande desenvolvimento e a sua utilização na liturgia católica e protestante tornou-se
comum. Mozart o considerou o “Rei dos instrumentos” e o Sacrosanctum Concilium Vaticano II, reafirma: “Tenha-se na Igreja Latina em grande consideração o órgão, como instrumento tradicional de música, cujo som pode acrescentar às cerimônias, admirável esplendor e elevar com veemência as mentes a Deus e às coisas divinas” (S.C. 120).
No Brasil, o órgão exerceu este papel grandioso em templos espalhados pelo país inteiro, mas não chegou a firmar uma tradição idêntica à que existe até hoje na Europa e na América do Norte. O clima tropical tem sido um obstáculo à manutenção desses instrumentos poderosos mas delicados, tornando a sua conservação muito cara para as instituições que os possuem. A cidade do Rio de Janeiro tem alguns instrumentos de muito boa qualidade mas quase todos carecendo de reparos importantes para um perfeito e completo funcionamento.
É nesse contexto que vimos anunciar o término da restauração do grande órgão da Igreja da Santa Cruz dos Militares e a sua reinauguração neste dia 8 de dezembro de 2007, com um concerto dedicado à Nossa Senhora da Conceição.
Este instrumento foi construído pela empresa Guilherme Berner e inaugurado a 1º de outubro de 1934, com a presença do gen.Pantaleão da Silva Pessoa (representando o exmº sr.Presidente da República, Getúlio Vargas) e do Almirante Amaral Peixoto, interventor na Capital Federal, atestado da importância atribuída a esta iniciativa da Irmandade da Santa Cruz dos Militares.
A Irmandade da Santa Cruz dos Militares foi criada há 384 anos, pelo governador geral Martim Correa de Sá. A restauração do órgão, foi totalmente paga com recursos desta Irmandade e realizada em dois anos, pela Família Artesã Rigatto & Filhos, empresa
altamente especializada neste tipo de trabalho, resultando que o instrumento é agora o melhor do Estado do Rio de Janeiro.
A Igreja da Santa Cruz é um dos exemplos mais puros do barroco tardio brasileiro e foi uma das primeiras Sés da cidade.
A L’Art Produções Artísticas, empresa do Rio de Janeiro dedicada, há 25 anos, à gravação de intérpretes da elite do nosso cenário artístico, preparou o repertório do concerto de reinauguração deste precioso instrumento, de modo que os que tiverem o privilégio de participar desta festa jubilosa, possam usufruir das possibilidades acústicas que o evento pretende oferecer.
No programa, além das peças clássicas da liturgia católica romana, serão apresentadas também obras imponentes e de alto virtuosismo, para destacar e exibir o poderio dos 1.100 tubos do instrumento, perfeitamente afinados. Sem esquecer o encanto de música baseada em modinhas brasileiras da época da chegada da família real portuguesa ao Brasil, de autoria de Sigismund Neukömm, cuja pesquisa deve-se à flautista francesa Odette Ernest Dias. Foram convidadas a organista inglesa Bridget Moura Castro e a flautista Beatriz Magalhães Castro. Esta última, terá uma participação especial no programa, tocando
algumas peças brilhantes, em conjunto com o órgão.
Considerando que o órgão é o mais completo e complexo instrumento musical disponível,
ele vem sendo usado, recentemente, para execução de obras que não foram escritas especialmente para ele. E, de fato, há versões esplêndidas que conferem dignidade e valor a músicas compostas para o piano ou outros instrumentos solistas, o que amplia o espectro de utilização do órgão, oferecendo ainda a possibilidade de ser usado vantajosamente em conjunto com outros instrumentos.
No programa de abertura, em 1934, o organista, sr.F.Barth, tocou a Fantasia em fá menor de A.Hesse, o Coral e Prelúdio em mi menor de J.S.Bach, o Fugatto da Missa de Requiem do Pe.José Maurício e o Prelúdio e Fuga sobre o nome B.A.C.H., de F.Liszt.
Na reinauguração, tocar-se-á a monumental Fuga em mi b maior BWV 552 de J.S.Bach, que é uma das mais deslumbrantes obras escritas por ele, tendo como tema o hino Oh God our Help in Ages Past, baseado numa canção popular. E também a magnífica tocatta da 5ª Sinfonia de Charles-Marie Widor, uma das mais emplogantes obras virtuosísticas do repertório organístico.
O concerto incluirá ainda uma sonata de Sigismund Neukömm, compositor austríaco, aluno de Haydn e um dos principais músicos da corte de D.João VI, além de obras litúrgicas raras de J.S.Bach, Georg Böhm, Nicolas le Bègue, Cécile Chaminade, Richard Purvis, Johannes Brahms, Pietro Yon, a Ave Maria de Gounod e a de Carlos Gomes.
O Projeto Música no Museu (mais de 500 concertos em 2007) escolheu esta manifestação como a síntese da sua vitoriosa série de concertos gratuitos, a mais grandiosa expressão da música universal. A contribuição da Música no Museu para a difusão dos clássicos, resume, neste concerto, a concretização do sonho obstinado de colocar a melhor música à disposição de todos, todos os dias do ano.
E, Graças a Deus, todos estão convidados.
ARTISTAS
Bridget Moura Castro
Há quase duas décadas ela é membro efetivo da ABO (American Bureau of Organists). Estudou órgão na Universidade de Reading na Inglaterra, com o organista mais conceituado do Reino Unido, Osborne Peasgood, responsável pelos ofícios da Abadia de Westminster, que é a igreja da Rainha. Mais tarde ela continuou os estudos com John Webster, que era o grande organista de Oxford. Nesta ocasião ela conquistou o Organ Prize, na Universidade
de Reading, além do Sight Reading Prize. Posteriormente aperfeiçoou-se em Budapest, na Hungria, com o organista Gérgely Férenc, da Liszt Férenc Academy of Budapest.
Durante os anos de 1969 e 1970 ela foi organista da Igreja
Anglicana de Botafogo – Rio de Janeiro, antes de mudar-se para os Estados
Unidos, onde reside desde então. Lá, ela foi organista durante 10 anos, da
Igreja de Santa Maria de Windsor Locks, em Connecticut e, mais tarde, por 8
anos, da Igreja francesa de Ste. Anne de Hartfotd, Connecticut.
Atualmente, ela é a Diretora de Música da Igreja Nossa Senhora das Dores de Hartford, Connecticut e prepara e toca órgão nas missas em latim, na Igreja de Santa Maria de New Britain, Connecticut, com repertórios de Canto Gregoriano além de missas de Schubert, Mozart, Rheinberger, Pietro Yon, Beethoven, Palestrina, Flors Peters, etc.
Bridget apresentou-se em concertos de órgão em diversas cidades dos Estados Unidos, no Texas, Massachussetts, Connecticut, Utah, Oklahoma, New York, etc, e também em cidades da Suíça, Espanha, Portugal, Inglaterra, Japão (Tokyo e Sanday), Brasil, Argentina, etc.
Bridget tem 8 CDs gravados com a L’Art Produções Artísticas do Rio de Janeiro, incluindo o CD Ave Maria, com repertório raro da devoção Mariana, gravado em Hartford, Connecticut, na companhia da soprano canadense Claudette Leblanc, CD que estará disponível para venda ao término deste concerto.
Beatriz Magalhães Castro
Carioca, foi a única brasileira a ser admitida na classe de flauta no Conservatório Nacional Superior de Música de Paris, onde estudou com Jean-Pierre Rampal, Michel Debost, Christien Lardé e Maurice Bourgue, obtendo, no começo de 1985, o primeiro prêmio em flauta e música de câmera. Venceu muitos outros concursos e entrou, por convite, na Julliard School of Music de Nova York, onde fez o mestrado e doutorado em flauta, estudando com Julius Baker. Sua tese de Doutorado foi centrada nas performances históricas obtidas em instrumentos modernos, sob a orientação do dr.Neal Zaslaw (da Universidade de Cornell).
Apresentou-se em diversos continentes, realizou gravações para o rádio e a TV, na França, Suécia, Estados Unidos e Brasil, e gravou o CD Fantaisies, só com música francesa, em duo com a pianista e organista Bridget Moura Castro, para o selo L’Art do Rio de Janeiro.
Participou de congressos e conferências internacionais, leciona na Universidade de Brasília, é responsável pelo programa de Pós Graduação – Música em Contexto, presidiu o XVI Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Estudos de Graduação em Música, é editora da Revista Música em Contexto, coordenadora das séries musicais para a Editora da Universidade de Brasília onde também responde pelo Centro de Estudos Musicológicos
e Etnográficos (CEMUNB).
Família Artesã Rigatto & Filhos
A Família Artesã Rigatto & Filhos tem uma antiga tradição como restauradores de órgãos tubulares. Os organeiros foram especializados na conceituada Fábrica Fratelli Ruffatti da cidade de Padova, Itália.
A recuperação de um instrumento como o da igreja da Santa Cruz dos Militares é, em geral, um trabalho demorado e exige muita precisão e cuidado, porque as milhares de peças devem operar com medidas, afinações, mecânica e fluxos perfeitos. Este órgão, que esteve inoperante durante 17 anos, funciona agora com 2 manuais de 56 teclas cada um, uma pedaleira de 30 teclas, 18 filas de tubos, 22 registros e 1.100 tubos; possibilita 13 acoplamentos, 3 combinações livres e 5 fixas além de 2 pedais de expressão e outro para o crescendo.
O chaveamento ótico dos manuais é moderno e os pedais tem sensores magnéticos. As informações passam todas por um sistema central de controle eletrônico digital de fácil manutenção. Os tubos de madeira sofreram um processo de restauração grande mas foi nos tubos de metal que este trabalho se fez mais necessário, pois estavam muito danificados. Estes Artesãos já restauraram outros 3 órgãos na cidade do Rio de Janeiro, justamente os que estão em melhor estado de conservação.